Após seis meses dando aulas, professor perde cargo na UFPE em disputa sobre cotas raciais

14 de agosto de 2026 Sociedade
Redação Tu Visse por Redação Tu Visse

Um professor negro de 31 anos teve a nomeação anulada pela Justiça após passar cerca de seis meses trabalhando na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). A decisão ocorreu depois que uma candidata que participou do mesmo concurso pela ampla concorrência questionou judicialmente a destinação da vaga pelas regras de cotas raciais.

Allison Ruan de Morais Silva havia sido aprovado para o cargo de professor do Departamento de Engenharia Química, na área de Engenharia de Processos Químicos e Bioquímicos. Ele foi nomeado em janeiro de 2026, tomou posse em fevereiro e começou a atuar como docente da universidade.

Antes da nomeação, Allison passou pelo processo de heteroidentificação previsto para candidatos que concorrem às vagas reservadas para pessoas negras. A nomeação consta em publicação oficial da UFPE no Diário Oficial da União.

O professor permaneceu no cargo durante o primeiro semestre, ministrando aulas na área de Processos Biotecnológicos. No entanto, uma candidata que disputou o concurso pela ampla concorrência, Brígida Maria Villar da Gama, entrou na Justiça questionando a forma como a vaga havia sido destinada.

Entenda a disputa

O concurso realizado pela UFPE previa 52 vagas. Dessas, 33 eram destinadas à ampla concorrência e as demais foram reservadas para diferentes modalidades de ações afirmativas, incluindo candidatos negros, indígenas, quilombolas e pessoas com deficiência. 

A controvérsia surgiu porque a vaga ocupada por Allison era a única disponível para aquela especialidade. A candidata da ampla concorrência argumentou que, nessas circunstâncias, a vaga não deveria ter sido direcionada a um candidato cotista.

A Justiça de primeira instância acolheu a argumentação e determinou a anulação da nomeação. A decisão foi proferida em 10 de julho de 2026.

Embora a defesa de Allison tenha apresentado recurso, a determinação judicial foi cumprida pela universidade em 28 de julho. Com isso, o professor deixou de exercer o cargo antes que o recurso fosse analisado.

Professor pretende recorrer

Após perder o cargo, Allison afirmou que considera a decisão prejudicial à efetividade das políticas de cotas raciais em concursos para docentes.

O professor sustenta que foi aprovado regularmente, passou pela banca de heteroidentificação, foi nomeado e chegou a exercer suas funções antes que sua situação fosse alterada por uma decisão judicial.

A defesa pretende recorrer da decisão e questiona a interpretação adotada no processo sobre a aplicação das cotas no concurso.

O que diz a UFPE

Em nota, a UFPE afirmou que a anulação da nomeação não partiu de uma decisão administrativa da própria universidade, mas do cumprimento de uma determinação judicial.

A instituição também declarou que, como órgão da administração pública, tem obrigação de cumprir decisões judiciais, ainda que exista a possibilidade de recurso.

A universidade reafirmou ainda seu compromisso com a implementação das políticas de ações afirmativas. 

Concurso já havia sido alvo de outra disputa

O concurso em questão já havia sido judicializado em outro caso envolvendo a aplicação das vagas reservadas.

Segundo informações publicadas pela imprensa, outra professora nomeada pela UFPE também teve a situação funcional questionada judicialmente após uma candidata da ampla concorrência contestar a distribuição da vaga. A sentença desse caso foi confirmada em julho.

A sucessão de processos trouxe novamente ao debate a forma como as universidades federais devem distribuir as vagas reservadas entre as diferentes áreas e especialidades dos concursos.

A legislação de cotas sofreu mudanças recentes e prevê critérios para a reserva de vagas destinadas a diferentes grupos. A regulamentação permite que as universidades adotem diferentes formas de distribuição, o que tem gerado discussões jurídicas sobre a aplicação das regras em concursos com poucas vagas por área.

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